Oi, me chamo Ana e vou escrever hoje porque meu namorado me
deixou. Deixou não é a melhor palavra, as pessoas falam assim quando alguém
morre e Deus me perdoe pensar assim, mas infelizmente ele não morreu, só me
largou, melhor essa colocação pois foi exatamente isso o que aconteceu, fui
largada.
Eu era a Ana, com 17, bonita, rodeada de pessoas sempre e nunca me
sentia só, minha auto estima era ótima, meu humor não era dos piores, eu ria
muito, sonhava muito, não chorava facilmente, essa era minha construção psicológica
e as pessoas gostavam bastante dessa Ana. Quase todas as pessoas, meu
namorado não. Mas não se enganem, ele gostava de mim sim, só que do jeito dele,e
ironicamente esse jeito era inseguro, imaturo e abusivo.
Nosso relacionamento teve início numa festa de réveillon,
cheio de promessas de um ano melhor com muito amor e novas expectativas. Não
cumprimos metade delas, aliás acabei abrindo mão de várias delas por conta do
namoro recente. Ao longo desse primeiro ano reparei que eu não era mais eu e
sim nós, mas não percebi que ele continuava sendo apenas ele. Percebi também que
estava me retraindo, que as festas eram cada vez mais raras, minha aparência já não era a mesma (nem minha auto estima), que havia afastado todas aquelas pessoas, minhas amigas já
não estavam ali tão constantemente, mas ok, ele estava.
Fui alertada algumas vezes sobre ele, sobre quem eu
tinha me tornado, mas os anos foram passando e eu me achava feliz. Ficamos 5
anos, 2 meses e 16 dias juntos, sim eu fiz as contas, calculei porque no último
ano fui preenchida por uma conformidade absurda que apesar de fazer da nossa
relação algo estável estava me corroendo por dentro em forma de covardia. Foram 5 anos de idas e
voltas onde ele errava e quem se desculpava era eu, 5 anos de infidelidade, 5
anos de desculpas de um modo geral, 5 anos de inferioridade, tem 5
anos que eu me desfigurei completamente e nem sequer percebi isso, só hoje vejo
aquela Ana que fui aos 17, mas o pior: são 5 anos que não recebo o mínimo de
respeito necessário à sobrevivência de uma relação e nem sequer me dei a esse respeito (e à coragem) de acabar com tudo isso, fui largada.
Hoje me vejo aqui, aos 22 anos,madura o suficiente pra admitir
que o amor acaba sim e que o meu acabou logo no começo de um relacionamento
todo errado e frustrado. Me vejo tentando ser aquela que um dia fui, e fazer
tudo diferente, não mudar meus conceitos, não aceitar tanta humilhação, reatar
com aquele menino do primeiro beijo, mas principalmente tentando romper com a
filosofia do arrependimento, porque hoje eu tenho certeza: prefiro me
arrepender daquilo que não fiz.